O bug do 'talvez'

Num teste comum, a Iara pediu uma confirmação. A pessoa do outro lado respondeu só uma palavra: "talvez".

O sistema simplesmente parou de saber o que fazer. Não caiu, nada tão dramático assim. Travou de um jeito mais chato: como não sabia se "talvez" contava como sim ou como não, fez a única coisa que sabia fazer, que era repetir a pergunta. A pessoa respondeu "talvez" de novo. A pergunta voltou de novo. No grupo do squad, alguém mandou um print da conversa rodando sozinha, tipo disco pulando, só com um "kkkk isso não vai parar" de legenda.

Tela de terminal cheia de erros em vermelho, com a equipe trabalhando ao fundo
A tela cheia de erros — e a equipe investigando junto.

A primeira vontade foi resolver rápido. Mapear "talvez" pra "não" e seguir em frente. Cinco minutos, uma linha de código. Mas a gente segurou a mão ali. Antes de mexer em qualquer coisa, queria entender por que aquilo estava acontecendo.

A investigação

A causa não estava na palavra "talvez" em si. Estava numa suposição que a gente tinha feito sem perceber: a de que pergunta fechada recebe resposta fechada. O fluxo de confirmação foi desenhado com duas saídas, sim ou não, porque foi assim que a gente imaginou a conversa enquanto programava.

Só que gente de verdade não conversa assim. Gente de verdade responde com dúvida. Com pergunta de volta. Com um "depende" jogado ali no meio. Se a gente tivesse resolvido só o "talvez", vinha o "sei lá" duas mensagens depois e derrubava tudo de novo. Daí vinha o "acho que sim". O "hmm". A lista de palavras que não são nem sim nem não é enorme, e tratar uma por uma ia ser tipo enxugar gelo pra sempre.

O problema não era a palavra "talvez". Era esperar que as pessoas respondessem como máquina.

A correção

Com a causa clara, a correção acabou saindo maior do que a gente esperava. Hoje, quando uma resposta não é claramente sim nem não, o sistema primeiro olha o que já foi dito na conversa. Na maioria das vezes isso já resolve sozinho. Se ainda não der pra decidir, a Iara pergunta de novo, só que reformulando, em vez de repetir a mesma frase feito disco arranhado.

E se depois de duas tentativas a dúvida continuar, entra um atendente humano. É esse o combinado: ninguém fica preso num loop com robô.

A gente passou semanas ensinando a Iara a reconhecer os cinco níveis do Inaf, tabela de descritores, casos-âncora, aquilo tudo. E quase esqueceu de ensinar a coisa mais óbvia: que ninguém, nem a avó, nem a gente mesmo, fala só em sim ou não o tempo todo. Ainda tem uma lista de palavras estranhas testadas depois daquela noite ("sei lá", "bora ver", "pode ser que sim"), mas isso já é assunto pra outro post. Por hoje ficamos por aqui.